A Estrada Sem Nome


Um estudo etimológico sobre a palavra Cadê

A palavra cadê surgiu em meados do século XVII no Brasil. Antes dessa data, era um terrível problema para a população brasileira perder coisas por aqui. Todos tinham verdadeiro pavor em nunca mais encontrar objetos pessoais, animais de estimação e até mesmo os próprios parentes (as sogras, no entanto, causavam certo alívio quando sumiam).

Foi então que, em 18 de maio de 1632, em meio à invasão holandesa no nordeste do país, um duque francês chamado Monsieur Francielle de Padut (até hoje ninguém descobriu o que um duque francês fazia em um navio holandês) desembarcou em Olinda.

Eles estavam indo, na verdade, para as Ilhas Caribenhas. Mas um dos marujos da embarcação errou o chute em uma das peladas realizadas dentro da embarcação, e a bola fora boiando até a costa nordestina. Monsier Padut sabia que aqueles homens podiam ficar sem água, sem comida, sem mulheres, mas ficar sem futebol nos finais de semana era motim na certa. Assim, o nobre francês foi obrigado a aportar em terra brasileira e sair a procura da bola.

 

-          Cadét le boile? Cadét le pelote?

 

Como era de se esperar, ninguém entendeu o que ele falava, e os marujos tiveram que se contentar com um frescobol na areia. Contudo, naquele momento, fora pronunciado, pela primeira vez em solo brasileiro, o vocábulo cadét.

Após meia hora explicando o significado da palavra e seu respectivo uso, a população local ficou estarrecida. Logo, todos estavam falando cadét, que mais tarde seria transformada em cadê.

A empolgação era tanta com a nova descoberta que, por toda cidade, as pessoas deixavam suas coisas propositadamente em algum canto escondido apenas para usar, umas às outras, a palavra. Outras vezes, se confundiam e diziam cadê após acharem o pertence perdido. Mas, apesar de um ou outro acidente de percurso, a palavra tinha se adaptado muito bem à gramática nacional.

Por conseqüência, a sociedade começou a se transformar. O número de divórcios aumentou incrivelmente, juntamente com a quantidade de amantes descobertos dentro dos armários. A igreja, por sua vez, viu suas arrecadações baterem recordes após a criação do slogan eclesiástico: “Dízimo: Cadê o seu?”

Os portugueses ainda tentaram barrar o uso do verbete, chegando a prender quem o pronunciasse em público, ou antes das 10 da noite. Alegavam ser uma afronta à Coroa e aos costumes lusitanos, já que surgira de saqueadores franceses, o que era inadmissível para a língua de Camões. Entretanto, isso era apenas fachada. A verdade é que, após o surgimento da palavra, a venda de pentes, clips de papel e canetas Bic despencaram drasticamente, afetando os lucros que nossos colonizadores arrecadavam por aqui.

A palavra se alastrou rapidamente pelo país e logo estava sendo falada de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí (daí o surgimento da expressão).

Documentos revelam ainda que foi usada por os mais diversos personagens nacionais, como Bento Gonçalves, Antônio Conselheiro, o cangaceiro Lampião (este pronunciando uma derivação – “arri égua, cadê?”) e, até mesmo Tiradentes, que, antes de morrer, escrevera o manifesto ”Cadê – a Procura pela Liberdade nas Minas Gerais”, transformando o texto em um símbolo de resistência da Inconfidência Mineira.

 

CONTINUA

 



Escrito por Luciano Favaro às 23h39
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Um estudo etimológico sobre a palavra Cadê - Parte 2

Totalmente aderia à gramática portuguesa, D. Pedro II criou, em 1856, o Real Serviço de Achados e Perdidos Imperial, localizado no Rio de Janeiro, então capital do país.

Inicialmente utilizado apenas pela corte nacional, o Real Serviço de Achados e Perdidos Imperial foi, aos poucos, sendo requisitado por toda a população. Por esse motivo, em 1863, o Imperador abriu o serviço para todos os brasileiros, assim como havia feito seu avô. D. João VI, com os Correios e a Biblioteca Nacional tempos atrás, aumentando ainda mais sua popularidade no país.

Já no século XX, a palavra teve um papel crucial em um dos mais importantes movimentos culturais do país: A Semana de Arte Moderna de 1922.

Acontece que, minutos antes de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, Heitor Villa-Lobos perdera seus sapatos no hotel onde estava hospedado. Desesperado, perguntou por eles ao seu amigo, Oswald de Andrade:

 

-          Oswald, você viu meus sapatos por aí? Cadê meus sapatos, meu Deus? Cadê meus sapatos??

 

O amigo, sabendo da origem francesa do verbete, e embevecido pelas idéias de renovação da arte brasileira através dos valores nacionais e indígenas, recusou-se a ajudar o músico. Como não sabia Tupi, e estando completamente atrasado, Villa-Lobos então desistiu do calçado e chegou para a apresentação de chinelos. O ato se transformou em uma memorável crítica aos valores da época.

Quatro décadas depois, o verbete voltou a ser lembrado no cenário cultural brasileiro. Ou melhor, quase.

O ano é 1968, e em plena ditadura militar e contracultura, o então jovem compositor Geraldo Vandré cria uma canção, e nela põe o nome “Cadê minhas flores?”. Contudo, aconselhado por seu empresário, muda o nome da música, rebatizando-a de “Para não dizer que não falei de flores”.

Porém, ao chegar na análise da censura, a coisa engrossou. O problema é que os militares designados para avaliar a letra não eram muito letrados. Na verdade, eles se perdiam com frases com mais de cinco palavras. Assim, quando leram o nome da canção, não entenderam nada.

 

- Afinal, ele falou ou não falou de flores? Perguntaram uns aos outros.

 

Após a terceira tentativa frustrada de entender o nome, não tiveram dúvida: Um nome de música daquele tamanho só podia ser coisa de comunista.

Geraldo foi preso três dias depois. Ironicamente, suas últimas palavras antes de entrar no camburão foram:

 

-          Cadê os meus direitos?

 

O tempo passou e hoje, em pleno século XXI, a palavra está completamente consolidada em nosso cotidiano, e a vida, apesar das dificuldades que vivemos,  está mais fácil.

Por isso, da próxima vez que você, após uma exaustiva procura pela sala, encontrar o controle remoto de sua televisão - que provavelmente estará escondido entre as almofadas do sofá - pegue-o com as duas mãos, levante-o até a altura do peito, fixe seu olhar nele e diga, com voz de gratidão: “Obrigado, Monsieur Padut!”



Escrito por Luciano Favaro às 23h37
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São Paulo – 2046

O ano é 2046. Não, o mundo não acabou, como previam alguns ecologistas no começo do século. Ao contrário, nunca o planeta esteve tão limpo e desinfetado.

São Paulo, por incrível que pareça, tem um suave perfume de lavanda.

O grande problema de toda essa higiene é que ela acarretou um efeito colateral, que ninguém, nem os mais renomados sociólogos e psicanalistas, conseguiram prever. Mas os cientistas, em seu ímpeto de colocar nomes estranhos nas coisas, denominaram o quanto antes o mal: Chama-se Abstinência Poluitiva.

A abstinência polutiva foi detectada primeiramente logo após a proibição das buzinas dos motoboys e nos carros das mulheres, e se agravou com a extinção do rodízio de carros e da erradicação dos flanelinhas e dos vendedores de filtros de água por telemarkenting.

Mal estar, enjôos e náuseas são os principais sintomas da enfermidade - Foram detectados, em casos menos freqüentes, depressão e histeria coletiva. Mas nesse caso, apenas quando o governo anunciava um novo aumento do salário mínimo.

Para reverter o quadro, ou pelo menos amenizar os sintomas, a prefeitura passou então a realizar, uma vez por ano, a Semana da Poluição Paulistana.

A Semana da Poluição Paulistana consiste na recriação de situações de stress físico e psicológico, tão presentes na vida dos paulistanos décadas atrás. Os saudosistas adoram!

Durante o evento, a prefeitura mobiliza a Secretaria do Bem Estar Social para incentivar os motoristas a circularem por uma mesma avenida sempre em um horário específico. Então, ela fecha uma ou duas pistas da via, formando, assim, gigantescos congestionamentos, para o êxtase de motoristas e passageiros, que gritam de emoção - e desespero - dentro dos carros.

Além disso, enormes tendas são abertas por toda a cidade para a simulação de diversos tipos de poluição. Umas das mais procuradas é a requisitada Câmara de Gás. Apesar do nome, ela não tem nada a ver com as técnicas utilizadas pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Ao entrar na Câmara de Gás, o cidadão escolhe entre inúmeros tipos de odores que relembram a São Paulo dos velhos tempos: Rio Tietê, Rio Pinheiros, Fim de Feira, Caminhão de Lixo, Escapamento de Caminhão Desregulado, e o mais procurado, o poético Ônibus Lotado em uma tarde de verão.

Há a possibilidade também de apreciar outra tenda, apelidada de Laranja Mecânica. Esta tenda é um espaço onde o cidadão é exposto às mais variadas situações de aflição e constrangimento, tão freqüentes na vida dos paulistanos da “velha guarda”. Um telão transmite, em 3D, imagens de crianças de rua, malabaristas nos faróis, mendigos e todo o rol de pedintes, enquanto o som, em Doulb-Surround, estremece as paredes com as abordagens: “É um assalto!”, “Passa o carro, dona!”, e outras mensagens no imperativo. Angustiante, e um sucesso de visitação!

A prefeitura ainda conta com um espaço aberto chamado Camelódromo ou, como é carinhosamente chamado, Calcutá é Aqui. São centenas de voluntariados que se aglomeram em uma rua pré-determinada, tornando o trânsitos pedestre por ela praticamente impossível. Em meio ao caos e ao desespero, os voluntários gritam a plenos pulmões “3 por 1 real! 3 por 1 real!”, “Olha a pilha! Olha a pilha!”, “Paçoca, paçoca, paçoca!“ e outras delicadas abordagens de venda ao transeunte. Impossível voltar para a casa de mãos vazias!

Ao fim de cada dia, é realizado um delicioso churrasco de lingüiça e carne gorda para todos os que quiserem matar a saudade, regada a muito chope e refresco artificial de goiaba. Mas, depois de um dia agitado desses, a maioria da população prefere ir para casa e preparar um saboroso clean barbecue - berinjela grelhada, abobrinha na brasa e muito suco de clorofila para acompanhar. Afinal, é melhor não abusar de tanta realidade...



Escrito por Luciano Favaro às 23h24
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Contra-mão

Me admira vocês

Que desde os quatorze já sabiam

O caminho a percorrer

 

E aos trinta e oito

Têm certeza de onde estarão

 

Minha certeza

É meu caminho de hoje

Amanhã ou depois, pode ser

 

Que estarei convicto

De estar trilhando

Meu caminho pela contra-mão

Escrito por Luciano Favaro às 00h05
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Despertador

Fios de cabelo

Caem todos os dias

No travesseiro

Milhares de células mortas

Se desprendem da pele

Todas as manhãs

Pelos espessos

Invadem a face

Olheiras se destacam

No rosto inchado

E então, me pergunto,

Com receio:

Quem é esse que me olha

Do outro lado

Do espelho?



Escrito por Luciano Favaro às 00h14
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All we need is love

Que meu amor seja inquestionável,

Que venha de mansinho

Assim, como quem não quer nada

Que seja uma faísca,

Isso, apenas uma faísca

Que me acenda

E se instale

E então, me faça sentir a impossibilidade

Da vida antes de sua chegada

Não, não peço muito

Apenas que seja meu,

Que eu não precise mostrar

Demonstrar, explicar,

Certificá-lo para ninguém

- nem mesmo para mim

Que seja minha grande faísca solitária,

Dessas que ardem por dentro

Que não seja planejado

Arquitetado, medido

Nem mesmo que me se correspondido

Peço apenas um amor,

Que seja sim,

Verdadeiramente doído

Escrito por Luciano Favaro às 18h10
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A Arte da Guerra – Passo a Passo­

Criada pelos chineses por volta do ano 1000, e patenteada pelos japoneses 3 anos depois, a pólvora foi usada pela primeira vez como arma de fogo por um rei francês, quando tentava acender um rojão no Ano Novo.

Os americanos inventaram a bomba atômica, a internet e o estilingue, mas hoje isso tudo está à disposição dos inimigos dos Estados Unidos, à vista ou parcelado no cartão.

No livro A Arte da Guerra – Passo a Passo­, o historiador americano Maximilian Coxy examina a guerra de perto e alerta: Ela não cheira nada bem.

 

 

O livro “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, ainda continua influente em combates de guerra?

Maximilian Coxy - Hoje sabemos que a obra de Sun Tzu foi consultada por diversos militares ao longo da História. Os romanos leram e a traduziram para o latim. Napoleão pode ter lido também, mas provavelmente em uma versão pocket book, assim como os ingleses, mesmo que ambos não admitam isso. É provável que ainda hoje militares a consultem para a preparação de combates. Mas isso é difícil responder com certeza, já que ainda estou na página 11 do livro.

 

Quem os EUA devem temer: a China, a Coréia do Norte ou a Al Qaeda?

Coxy - Possivelmente uma combinação entre eles. Os Estados Unidos devem se preocupar com a China e a Coréia do Norte juntos, ou a Al Qaeda com a China, a Coréia do Norte com a Al Qaeda. Ou uma união entre os árabes e algum país latino americano. Ou ainda uma junção dos todos eles. Enfim, hoje os Estados Unidos devem temer qualquer coisa que se mova, basicamente.

 

E a China pode se tornar uma superpotência sem guerra?

Coxy -Historicamente não conheço nenhum país que tenha alcançado status de superpotência sem guerra. Alguns países entraram em superguerras, mas sem nenhuma potência. Esses se deram muito mal.

A verdade é que, normalmente, a potências já estabelecidas não dão espaço para que uma nova potência surja. E esse é o prelúdio de um confronto bélico. Analisando a situação dos Estados Unidos e da China hoje, podemos garantir que a melhor decisão a ser tomada é comprar um pacote turístico para as Bahamas e ficar por lá por tempo indeterminado.

 

Qual é o maior problema da China em questões armamentistas?

Coxy - O grande obstáculo da China, apesar de seu investimento por estruturação bélica e seu número gigantesco de soldados alistados, é o setor de comunicação. O problema é que a língua chinesa é tão difícil que nem os próprios chineses conseguem entender muito bem. Isso atrapalha um pouco as decisões em combate. Um exemplo clássico disso foi a conhecida batalha de Yun-Pé, em 1667. Um enorme batalhão chinês estava alinhado, aguardando ordens para invadir a região de Yun-Pé, na fronteira com o Vietnã. O coronel Wing Li então ordenou a todos que seguissem em direção nordeste, mas os soldados não entenderam o que o coronel tinha dito e rumaram para oeste, chegando a Paris 8 meses depois.

 

Dos militares citados em seu livro, quem é seu preferido?

Coxy - Tenho verdadeira admiração pelo Duque de Ashmor. No livro, conto um de seus primeiros combates, na Índia, em 1703. É inspirador relatar como ele enfrentou e venceu o exército Mongol. Os Mongóis tinham 4.500 homens bem treinados e fortemente armados, enquanto o batalhão de Ashmor possuía apenas 120 soldados, que usavam chinelos para se defender e palitos de dente para atacar. E um estudo revelou que a maioria deles estava completamente bêbada na hora do combate. Foi um feito impressionante.

 

Muito obrigado, Sr. Coxy.



Escrito por Luciano Favaro às 19h00
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Arquimedes, o taxista filósofo.

Em alguns países, principalmente os desenvolvidos, pessoas comuns, como os taxistas, conseguem se transformar em grandes filósofos. Aqui no Brasil, ao contrário, filósofos se tornam grandes taxistas.
Essa é a história de Arquimedes, o taxista filósofo.
Não vem ao caso explicar como ocorreu sua transformação de pensador a condutor. Crises, planos econômicos, juros altos, salários baixos... e quando foi ver, Arquimedes já estava dentro de um Gol branco, andando pelas ruas da cidade com a bandeira 2 ligada.
Apesar de estar rodando com seu táxi, ele aproveita os momentos que tem para refletir. Afinal, é um taxista em busca de respostas, nem que elas apareçam a caminho do Largo da Batata.

Mas não é somente dentro do carro que ele exercita seus conhecimentos acadêmicos. Quando está a pé, andando pelas ruas do bairro onde mora, costuma citar, por onde passa, trechos e pensamentos de grandes mestres da Sabedoria – Platão, Shoppenhauer, Nietzche. Na padaria mesmo, sempre que aparece por lá, seus colegas sempre ouvem atentamente suas sábias palavras, principalmente os que não estão escondidos debaixo do balcão ou atrás da porta.

Contudo, é ao volante que o condutor se sente mais confortável para suas confabulações e livre para as reflexões sobre temas que sempre inquietaram a humanidade... Quem somos? Para onde vamos? E quantas cuecas é bom levar?

São muitas as perguntas, e para a maioria delas ele ainda não chegou a uma conclusão definitiva. Mas de uma coisa tem certeza: O tempo e espaço são relativos, mas chegar atrasado no cinema é sempre um saco.

Algumas coisas atrapalham as confabulações automotivas de Arquimedes, como ambulâncias com a sirene ligada, buracos na pista e os temidos vendedores de pamonha. E clientes puxadores de papo, claro. Lá está ele, refletindo sobre o significado existencial do patinete motorizado, quando, do banco de trás, ouve:

 

-          E então, quem você acha que é o vilão da novela?

 

Com uma pergunta dessas, Sócrates pararia o carro e beberia duas doses de cicuta. Mas ele não é Sócrates, e como bom taxista, respondeu cortesmente:

 

-          Estou entre o mordomo e o jardineiro, chefe... 

 

É como ele sempre diz: “Melhor um cliente na mão do que duas epifanias voando...”

 

A verdade é que, após tanto tempo pelas ruas da cidade, Arquimedes já se acostumou com o caos e com a desordem da cidade, e nem se preocupa mais com os acidentes intelectuais de percurso.

Ontem mesmo, entre um farol e outro da Radial Leste, Arquimedes começou a refletir sobre sua vã existência. O surgimento do Universo, a efemeridade da vida... Estava progredindo bem, até um motoboy passar buzinando em sua orelha esquerda e fazer o filo-taxista perder a concentração. Então, o passageiro do táxi fez um comentário sobre a mãe do motoboy, e Arquimedes respondeu que São Paulo era assim mesmo e tal... Depois disso, não conseguiu mais voltar à sua linha de raciocínio, e sua vã existência ficará mais vã do que nunca.

Mas pelo menos voltou para casa feliz: Conseguiu descolar 5 mangos de gorjeta do cliente. Taxista educado é outro papo.

Escrito por Luciano Favaro às 12h43
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Poeminha do Imigrante

Êta lasquera

Terra da fumaça e da garoa

Ô terrinha boa

Apesar da trabalhera

 

Olha só essa gentidão

Que não pára sossegada

Parece sempre atrasada

Correndo a cada tempo

Em uma direção

 

Não dianta ficar parado

Nem tampouco de braços cruzados

É melhor apertar o passo

Que aqui se vai para frente

Nem que seja carregado

 

Mas, apesar da confusão

Que deixa qualquer um abestalhado

Você parece homem apaixonado:

Aceitou comigo o casamento

Antes mesmo de lhe pedir a mão

 

Por isso, te digo agora cortesmente:

São Paulo, teu coração

É igual ao de mainha

É só dar uma apertadinha

Que sempre cabe mais gente!

Escrito por Luciano Favaro às 00h47
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Poder e Sobrevivência

Um povo/nação se aproveita do momento histórico e toma conta do pedaço. Explora aqui, escraviza ali, até que um outro povo/nação aproveita outro momento histórico e puxa o tapete de todo mundo. Mais um pouco de exploração, mais um pouco de extermínio, e assim vem sendo desde que o mundo é mundo. Isso é natural do ser humano, mesmo que seja duro de admitir.

Os romanos foram grandes exploradores, construíram um próspero e gigantesco império às custas da escravidão de povos mais fracos e desorganizados. Os espanhóis e portugueses não foram diferentes, basta lembrar o que fizeram com os Andinos e com índios e os recursos naturais deste país. Os ingleses, polidos e cheios de classe, se esqueceram disso quando deixaram mulheres e crianças trabalhando doze, dezesseis horas diárias para manter as máquinas sempre a todo vapor na Revolução Industrial. Sem contar do neo-colonialismo, que bancou as jóias da coroa à custa de sangue, suor e lágrimas das colônias asiáticas.

Os Estados Unidos fizeram, e ainda fazem, as mesmas coisas, criando e recriando guerras infindáveis para garantir poder, petróleo e lucros incalculáveis de sua sempre poderosa indústria bélica. A diferença é que os americanos sempre tiveram um ótimo departamento de marketing.

E agora vem a China, que uniu o limbo de duas vias político-econômicas: Se olharmos para a esquerda, veremos uma ditadura militar oprimindo qualquer liberdade da população e dos meios de comunicação. E quem discordar disso leva bala. Se olharmos para a direita, veremos um país capitalista, apesar das bandeirinhas vermelhas, que conseguiu a proeza de escravizar seu próprio povo para ganhar espaço na corrida do comércio mundial, apresentando preços imbatíveis devido aos salários miseráveis e à exploração, inclusive infantil, na indústria.

Mas isso tudo é normal. Isso tudo é humano. Desde que descobrimos o osso e que poderíamos bater com ele no macaco mais fraco para garantir o canto mais seguro caverna, isso acontece. Então, nada de culpar os americanos, os romanos, os portugueses etc. pelas mazelas que hoje estamos vivendo. Poderia ser qualquer um, qualquer povo, basta apenas que fosse humano.

O interessante é que, ao saber que o planeta está morrendo, e junto deles nós também, pela primeira vez, e após milhares de anos, estamos diante de um dilema exclusivamente humano. Não tem nada a ver com cor da pele, com religião, política. Pela primeira vez em toda nossa existência, teremos que escolher entre dois dos nossos mais sólidos alicerces, duas de nossas principais buscas, que fizeram o Homem ser o que somos hoje: Precisamos escolher entre o Poder e a Sobrevivência. Ou o Homem continua sua busca desenfreada por dinheiro, e conseqüentemente por poder, e acabaremos todos cozinhados pelo calor, ou nosso velho e sempre bom instinto de sobrevivência sobressairá, acarretando certamente severos ônus financeiros para os países, principalmente os países mais industrializados, vulgo mais poderosos. As apostas estão na mesa.

 



Escrito por Luciano Favaro às 20h10
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A festa acabou

Não costumo escrever assuntos do cotidiano no blog, mas hoje vou abrir uma exceção. É que esse papo da destruição do planeta está me deixando com as barbas de molho de verdade.

O engraçado é que, durante muito e muito tempo, destruíram os rios, acabaram com as florestas, mataram os animais, produziram carros que faziam três quilômetros com um litro de gasolina - isso os econômicos, os potentes faziam três litros por quilômetro - e agora estamos nessa roubada que não tem hora para acabar.

Os noticiários então me dizem que só posso tomar um banho por dia, e de dois minutos, porque senão alguém no Uzbequistão ficará sem água para beber durante três meses. Se eu quiser pegar meu carro e ir até a padaria comprar pão, oitocentos ursos brancos morrerão imediatamente por causa do derretimento das calotas polares. E se eu colocar uma colherinha de soja a mais no meu prato então, sessenta e duas espécies de mamíferos serão extintas sumariamente na Amazônia no mesmo instante.

Em outras palavras, fizeram a maior festa de arromba neste planeta durante um século, e agora mandaram a conta, com juros e correção monetária, para nós, que não fomos convidados, pagar. E o pior de tudo é que a festa foi boa.

 

PS.: E para os mais otimistas, que ainda acreditam que isso aqui tem jeito, uma última notícia: O Irã está a um passo da fabricação da bomba atômica.

 

 

Boa noite e durma com os anjos.



Escrito por Luciano Favaro às 23h58
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Três histórias tristes de uma trupe.

(Histórias baseadas em fatos reais sem nenhuma comprovação de veracidade)


Carmem começou no circo fazendo apenas alguns bicos. Primeiramente, trabalhava como reserva de Billy, a mulher-costeletas. E então, progrediu na carreira, passando a se apresentar com suíças do Carlos Menem, cavanhaque, bigode do Charles Chaplin, bigode do Charles Bronson, até ser promovida a mulher-barbada. Adorava seu serviço, e chegou a ter até um pequeno affair com um colega de trabalho, Respingo, o cantor erudito de lábio leporino, terminando o romance após uma de suas apresentações de “O Barbeiro de Sevilha”.

Mesmo com sua longa barba grisalha, Carmem nunca conseguiu um bom público em sua tenda, apesar de seu esforço para atrair mais gente. Certa vez, entrou no picadeiro como Mamãe-Noel-barbada, surpreendendo todas as crianças da platéia, as quais choraram por duas horas sem parar. Outra vez, se apresentou de biquíni sem se depilar durante 2 meses, causando um grande mal-entendido com Konga, a mulher-macaco.

Ainda assim, Carmem era feliz com o que fazia, e nem se importava com sua aparência incomum. Ficava um pouco incomodada apenas quando a chamavam de “O bom velhinho” durante o Natal. Foi então que, um dia, ela descobriu o porquê do baixo público em suas apresentações. Soube, através de uma tia-avó de terceiro grau - que por engano entrou em sua tenda pensando estar no campeonato estadual de piadas sem sentindo - que seu nome era Atílio, era pai de dois filhos e que sua conta no banco estava no cheque-especial. Além disso, contou que ele era um neo-liberal fervoroso, fato que chocou Carmem, já que possuía inúmeras camisetas do Che Guevara.
Hoje, Carmem trabalha em um escritório de contabilidade no centro da cidade, revisando vírgulas em dízimas periódicas. Se sente muito confortável na mesa onde trabalha, apesar das crises de claustrofobia.
“Me sinto plenamente realizada profissionalmente”, revelou certa vez, antes de sua dose diária de cicuta.



Escrito por Luciano Favaro às 19h29
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Secou as lágrimas, o rosto inchado
Me olhou, com desprezo, e sussurrou
Vá embora, não quero mais você
Ao meu lado
E então, saí por aí, sozinho,
Fumei, bebi,
E procurei pela noite, em vão
Por algum caminho
Agora, enquanto você calcula juros
Debaixo de um ar-condicionado
Eu estou aqui,
Com meus jeans surrados
Meus cabelos compridos
Caminhando pela chuva,
Com um sorriso nos lábios
Posso mesmo não ser um modelo de pessoa
Desses que você encontra
Nas novelas e nas revistas importadas
Mas acredite, não estou à toa
Sigo em frente nesta vida
Uma hora ali, outra em outro lado
Mas sempre em frente
Calmo e vacinado
E se um dia, por acaso
Na rua você cruzar comigo
E eu estiver correndo
Contra o atraso, de terno e gravata
Com as sobrancelhas franzidas
Calando poetas
E tropeçando em mendigos
Por favor, compre umas flores
Vista seu vestido mais discreto
E reze pela minha alma
Porque, neste dia, meu amor
Não tenha dúvidas,
Eu já terei morrido.


Escrito por Luciano Favaro às 12h33
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Olhos de mel

Nunca se esqueça
Que apesar destes dias de dureza
Que apesar destas noites sem estrelas
Haverá sempre a esperança
E a doçura em seus olhos de mel

Se sorri, e se chora agora
Tudo bem
Seus puros e tristes olhos de mel
Nasceram livres para trilhar caminhos
Que nem todos conseguem entender

Solidão, amor, pureza
Lágrimas, por que não?
Lágrimas não são sinal de fraqueza
São a união de sal e leveza
Como o encontro do mar com o amanhecer

Seja forte apenas
Não perca sua doçura, apenas seja forte
Para quando, por tortuosos vales descer
E encontrar a desilusão
Juntar forças, subir
E tornar a sorrir, então


(Para a menina dos olhos de mel)

Escrito por Luciano Favaro às 13h59
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Tempos Modernos

Hoje vi um sociopata com 254 amigos no Orkut.

Escrito por Luciano Favaro às 18h18
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