A Estrada Sem Nome


A lenda do grande mestre Ni.

A lenda diz que, em meados do século VIII, um monge, conhecido apenas por monge Ni, saiu em busca da iluminação, abandonando todos seus bens materiais e indo morar em uma caverna isolada, no alto de uma linda colina, depois de uma ordem de despejo da sua casa. Ali, ele tinha certeza que o caminho ao nirvana seria mais fácil, já que nenhuma testemunha de Jeová o acordaria domingo de manhã para vender revistas.
Na caverna, alimentava-se de frutos silvestres, meditava e, quando se sentia entediado, fazia palavras cruzadas e jogada peteca.
Após anos em total isolamento, um jovem apareceu em seu abrigo, dizendo ser vendedor de enciclopédias. Estava desesperado e com fome, e então, o grande monge ofereceu a ele abrigo e uma lata de atum. O rapaz sentiu-se agraciado, e mesmo não conseguindo comer o atum por não ter um abridor de latas, ficou encantado com a bondade daquele homem que, a partir daquele momento, virara seu grande mestre.
O monge aceitou com honra tal responsabilidade, batizando o rapaz de ishmira batsum, ou, em uma tradução literal, o discípulo que rói as unhas dos pés.
Assim, os dois passaram vários anos na montanha, o mestre e seu discípulo, um se elevando, outro aprendendo. Dividiam tudo o que tinham para a sobrevivência na clausura, a comida, a água, as vestimentas, só não dividiam o mesmo colchão porque pegava mal.
Um belo dia, enquanto meditava, monge Ni sentiu algo estranho em seu corpo, leveza, contemplação e uma vontade incontrolável de imitar uma galinha: sim, era seu corpo se elevando em direção à mais completa iluminação. O monge, então, levantou-se e, antes de alcançar o nirvana, declamou mais de 200 provérbios seguidos enquanto fazia polichinelos. Boa parte desses sagrados provérbios foi, infelizmente, perdida, porque o telefone tocou na mesma hora e o discípulo foi atender, e quando voltou o grande mestre já tinha terminado. O jovem então pediu para ele repetir o que tinha dito, mas o monge já não se lembrava mais.
O que nos restou, portanto, foi apenas uma faísca da sabedoria do grande mestre Ni, anotada por seu fiel discípulo em alguns post-its, antes de o monge alcançar a iluminação e partir dessa para melhor.
Abaixo, alguns dos sagrados provérbios de mestre Ni, anotados por ishmira batsum há mais de 13 séculos, e que ainda hoje são amplamente conhecidos nos países orientais:

Galinha que come minhoca fica longe do rio.
O tolo admira a banana. O sábio a come.
Em uma sala com um menino e um velho, certamente um dos dois irá ao chão.
Na hora do apuro, um cálice e um penico têm a mesma serventia.
O tolo conta as estrelas. O sábio o espera terminar.
Para o cego, a peruca é um guaxinim em permanente repouso.
O sábio difere perfeitamente o ter e o ser. O fanho nem tanto.


Escrito por Luciano Favaro às 20h03
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