Carmem começou no circo fazendo apenas alguns bicos. Primeiramente, trabalhava como reserva de Billy, a mulher-costeletas. E então, progrediu na carreira, passando a se apresentar com suíças do Carlos Menem, cavanhaque, bigode do Charles Chaplin, bigode do Charles Bronson, até ser promovida a mulher-barbada. Adorava seu serviço, e chegou a ter até um pequeno affair com um colega de trabalho, Respingo, o cantor erudito de lábio leporino, terminando o romance após uma de suas apresentações de “O Barbeiro de Sevilha”.
Mesmo com sua longa barba grisalha, Carmem nunca conseguiu um bom público em sua tenda, apesar de seu esforço para atrair mais gente. Certa vez, entrou no picadeiro como Mamãe-Noel-barbada, surpreendendo todas as crianças da platéia, as quais choraram por duas horas sem parar. Outra vez, se apresentou de biquíni sem se depilar durante 2 meses, causando um grande mal-entendido com Konga, a mulher-macaco.
Ainda assim, Carmem era feliz com o que fazia, e nem se importava com sua aparência incomum. Ficava um pouco incomodada apenas quando a chamavam de “O bom velhinho” durante o Natal. Foi então que, um dia, ela descobriu o porquê do baixo público em suas apresentações. Soube, através de uma tia-avó de terceiro grau - que por engano entrou em sua tenda pensando estar no campeonato estadual de piadas sem sentindo - que seu nome era Atílio, era pai de dois filhos e que sua conta no banco estava no cheque-especial. Além disso, contou que ele era um neo-liberal fervoroso, fato que chocou Carmem, já que possuía inúmeras camisetas do Che Guevara.
Hoje, Carmem trabalha em um escritório de contabilidade no centro da cidade, revisando vírgulas em dízimas periódicas. Se sente muito confortável na mesa onde trabalha, apesar das crises de claustrofobia.
“Me sinto plenamente realizada profissionalmente”, revelou certa vez, antes de sua dose diária de cicuta.