Um estudo etimológico sobre a palavra Cadê
A palavra cadê surgiu em meados do século XVII no Brasil. Antes dessa data, era um terrível problema para a população brasileira perder coisas por aqui. Todos tinham verdadeiro pavor em nunca mais encontrar objetos pessoais, animais de estimação e até mesmo os próprios parentes (as sogras, no entanto, causavam certo alívio quando sumiam).
Foi então que, em 18 de maio de 1632, em meio à invasão holandesa no nordeste do país, um duque francês chamado Monsieur Francielle de Padut (até hoje ninguém descobriu o que um duque francês fazia em um navio holandês) desembarcou em Olinda.
Eles estavam indo, na verdade, para as Ilhas Caribenhas. Mas um dos marujos da embarcação errou o chute em uma das peladas realizadas dentro da embarcação, e a bola fora boiando até a costa nordestina. Monsier Padut sabia que aqueles homens podiam ficar sem água, sem comida, sem mulheres, mas ficar sem futebol nos finais de semana era motim na certa. Assim, o nobre francês foi obrigado a aportar em terra brasileira e sair a procura da bola.
- Cadét le boile? Cadét le pelote?
Como era de se esperar, ninguém entendeu o que ele falava, e os marujos tiveram que se contentar com um frescobol na areia. Contudo, naquele momento, fora pronunciado, pela primeira vez em solo brasileiro, o vocábulo cadét.
Após meia hora explicando o significado da palavra e seu respectivo uso, a população local ficou estarrecida. Logo, todos estavam falando cadét, que mais tarde seria transformada em cadê.
A empolgação era tanta com a nova descoberta que, por toda cidade, as pessoas deixavam suas coisas propositadamente em algum canto escondido apenas para usar, umas às outras, a palavra. Outras vezes, se confundiam e diziam cadê após acharem o pertence perdido. Mas, apesar de um ou outro acidente de percurso, a palavra tinha se adaptado muito bem à gramática nacional.
Por conseqüência, a sociedade começou a se transformar. O número de divórcios aumentou incrivelmente, juntamente com a quantidade de amantes descobertos dentro dos armários. A igreja, por sua vez, viu suas arrecadações baterem recordes após a criação do slogan eclesiástico: “Dízimo: Cadê o seu?”
Os portugueses ainda tentaram barrar o uso do verbete, chegando a prender quem o pronunciasse em público, ou antes das 10 da noite. Alegavam ser uma afronta à Coroa e aos costumes lusitanos, já que surgira de saqueadores franceses, o que era inadmissível para a língua de Camões. Entretanto, isso era apenas fachada. A verdade é que, após o surgimento da palavra, a venda de pentes, clips de papel e canetas Bic despencaram drasticamente, afetando os lucros que nossos colonizadores arrecadavam por aqui.
A palavra se alastrou rapidamente pelo país e logo estava sendo falada de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí (daí o surgimento da expressão).
Documentos revelam ainda que foi usada por os mais diversos personagens nacionais, como Bento Gonçalves, Antônio Conselheiro, o cangaceiro Lampião (este pronunciando uma derivação – “arri égua, cadê?”) e, até mesmo Tiradentes, que, antes de morrer, escrevera o manifesto ”Cadê – a Procura pela Liberdade nas Minas Gerais”, transformando o texto em um símbolo de resistência da Inconfidência Mineira.
CONTINUA
Escrito por Luciano Favaro às 23h39
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Um estudo etimológico sobre a palavra Cadê - Parte 2
Totalmente aderia à gramática portuguesa, D. Pedro II criou, em 1856, o Real Serviço de Achados e Perdidos Imperial, localizado no Rio de Janeiro, então capital do país.
Inicialmente utilizado apenas pela corte nacional, o Real Serviço de Achados e Perdidos Imperial foi, aos poucos, sendo requisitado por toda a população. Por esse motivo, em 1863, o Imperador abriu o serviço para todos os brasileiros, assim como havia feito seu avô. D. João VI, com os Correios e a Biblioteca Nacional tempos atrás, aumentando ainda mais sua popularidade no país.
Já no século XX, a palavra teve um papel crucial em um dos mais importantes movimentos culturais do país: A Semana de Arte Moderna de 1922.
Acontece que, minutos antes de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, Heitor Villa-Lobos perdera seus sapatos no hotel onde estava hospedado. Desesperado, perguntou por eles ao seu amigo, Oswald de Andrade:
- Oswald, você viu meus sapatos por aí? Cadê meus sapatos, meu Deus? Cadê meus sapatos??
O amigo, sabendo da origem francesa do verbete, e embevecido pelas idéias de renovação da arte brasileira através dos valores nacionais e indígenas, recusou-se a ajudar o músico. Como não sabia Tupi, e estando completamente atrasado, Villa-Lobos então desistiu do calçado e chegou para a apresentação de chinelos. O ato se transformou em uma memorável crítica aos valores da época.
Quatro décadas depois, o verbete voltou a ser lembrado no cenário cultural brasileiro. Ou melhor, quase.
O ano é 1968, e em plena ditadura militar e contracultura, o então jovem compositor Geraldo Vandré cria uma canção, e nela põe o nome “Cadê minhas flores?”. Contudo, aconselhado por seu empresário, muda o nome da música, rebatizando-a de “Para não dizer que não falei de flores”.
Porém, ao chegar na análise da censura, a coisa engrossou. O problema é que os militares designados para avaliar a letra não eram muito letrados. Na verdade, eles se perdiam com frases com mais de cinco palavras. Assim, quando leram o nome da canção, não entenderam nada.
- Afinal, ele falou ou não falou de flores? Perguntaram uns aos outros.
Após a terceira tentativa frustrada de entender o nome, não tiveram dúvida: Um nome de música daquele tamanho só podia ser coisa de comunista.
Geraldo foi preso três dias depois. Ironicamente, suas últimas palavras antes de entrar no camburão foram:
- Cadê os meus direitos?
O tempo passou e hoje, em pleno século XXI, a palavra está completamente consolidada em nosso cotidiano, e a vida, apesar das dificuldades que vivemos, está mais fácil.
Por isso, da próxima vez que você, após uma exaustiva procura pela sala, encontrar o controle remoto de sua televisão - que provavelmente estará escondido entre as almofadas do sofá - pegue-o com as duas mãos, levante-o até a altura do peito, fixe seu olhar nele e diga, com voz de gratidão: “Obrigado, Monsieur Padut!”
Escrito por Luciano Favaro às 23h37
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